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Mineração

Com reservas consideradas essenciais para a economia de baixo carbono, os dois países disputam protagonismo global para conquistar capital estrangeiro e preservar o controle sobre ativos estratégicos

costumados a disputar protagonismo no futebol, Brasil e Argentina agora dividem o palco dos minerais críticos. Com reservas essenciais para a transição energética e a revolução digital, os dois países buscam ampliar relevância no mercado global, mas seguem caminhos distintos para atrair investimentos e transformar riqueza mineral em desenvolvimento econômico.

Enquanto o governo argentino aposta em um ambiente regulatório voltado à rápida atração de capital estrangeiro para ampliar exportações de commodities minerais, o Brasil busca combinar a expansão da mineração com políticas que incentivem o processamento doméstico e a agregação de valor aos minerais produzidos no país. A diferença entre essas estratégias revela não apenas prioridades econômicas distintas, como também visões de longo prazo sobre soberania industrial e segurança das cadeias de fornecimento.

“Brasil e Argentina não competem pela intensidade do comércio bilateral de minerais, mas pela capacidade de se consolidarem como fornecedores estratégicos para o mercado internacional”, disse Leonardo Alves Corrêa, especialista em Direito Minerário e professor da Faculdade de Direito da UFMG, ao Radar Mineração. “São duas potências geológicas e com modelos diferentes de produção. A disputa é para saber qual desses modelos será mais atrativo aos investidores internacionais”, completou.

Segundo ele, a principal diferença está na organização institucional e nos objetivos econômicos de cada país. No Brasil, a gestão dos recursos minerais é centralizada pela União, por meio da Agência Nacional de Mineração (ANM). Já na Argentina, a administração é mais descentralizada, cabendo às províncias a gestão dos recursos minerais e das políticas de desenvolvimento do setor.

Janela de oportunidade

Essa distinção se reflete também na estratégia adotada para aproveitar o atual ciclo de demanda por minerais críticos.

A Argentina vê os minerais como uma janela de oportunidade para atrair grandes investimentos e acelerar um novo ciclo minerário, buscando se consolidar como exportadora de commodities. O Brasil, por sua vez, já possui uma mineração consolidada e procura avançar para um modelo que combine estabilidade regulatória com agregação de valor à cadeia produtiva.

Leonardo Alves Corrêa

Nos últimos anos, o governo argentino intensificou medidas para atrair grandes projetos de mineração, especialmente os voltados ao lítio e ao cobre, considerados os dois principais vetores de crescimento do setor no país.

Entre os instrumentos utilizados está o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), que oferece estabilidade fiscal e tributária de longo prazo para grandes empreendimentos, reduzindo riscos para investidores internacionais. Paralelamente, o país vem ampliando sua aproximação com os Estados Unidos na agenda dos minerais críticos, em uma estratégia de inserção mais rápida nas cadeias globais de suprimentos.

As projeções reforçam essa expectativa. Estudos recentes indicam que as exportações minerais argentinas podem saltar de cerca de US$ 6 bilhões, em 2025, para mais de US$ 30 bilhões em 2035, impulsionadas principalmente pela expansão da produção de lítio e cobre.

Brasil busca fortalecer a cadeia industrial

No Brasil, o debate vem se concentrando na construção de uma política mineral capaz de ampliar o processamento doméstico e reduzir a dependência da exportação de produtos de baixo valor agregado.

“O Brasil já é um grande exportador de minério. O desafio agora é avançar na agregação de valor. Não é um processo simples, mas existe uma discussão consolidada sobre fortalecer a cadeia produtiva e ampliar a industrialização dos minerais estratégicos”, observa Corrêa.

Essa visão também aparece nas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, que aconteceu no final de junho. Ao defender o desenvolvimento de cadeias regionais para minerais críticos, Lula afirmou que incorporar etapas de maior valor agregado representa uma questão de segurança nacional e soberania para os países da região.

Nesse contexto, o Paraguai apresentou aos países do bloco um “Mapa do Caminho para o Plano de Minerais Críticos do Mercosul”, iniciativa que pretende estruturar uma estratégia regional para exploração, processamento e agregação de valor desses recursos, além de criar um diagnóstico conjunto sobre o potencial mineral dos países membros.

Cooperação em potássio

Apesar das divergências, os dois países têm iniciativas de cooperação em áreas minerais consideradas estratégicas.

Um exemplo é o memorando firmado em dezembro de 2024 para ampliar o fornecimento de potássio argentino ao Brasil. O mineral é fundamental para a produção de fertilizantes, segmento em que o Brasil permanece bastante dependente das importações. A diversificação da oferta, especialmente a partir de um fornecedor regional, reduz riscos logísticos e geopolíticos para o agronegócio brasileiro.

“Não existe uma troca intensa de minerais entre Brasil e Argentina. O que existe são dois grandes polos minerais oferecendo modelos distintos de desenvolvimento. Embora as bases geológicas de cada país sejam naturalmente distintas, a grande diferença na inserção global está na forma como cada um escolheu organizar sua política mineral”, finaliza Corrêa.

uem visita a mina de Brucutu, uma jazida de minério de ferro explorada a céu aberto pela mineradora Vale em São Gonçalo do Rio Abaixo, na região central de Minas Gerais, notará o vaivém de gigantescos caminhões amarelos. Capazes de levar 240 toneladas de carga em cada viagem, eles transportam o minério retirado da lavra até a área de descarga, onde o material será processado. Os 13 veículos da marca Caterpillar que compõem a frota trafegam sem operadores na cabine. Eles são monitorados de salas de comando, por meio de sistemas de computadores, GPS, radares e inteligência artificial (IA).

Fruto de seis anos de pesquisa e testes, a iniciativa, implementada progressivamente a partir do segundo semestre de 2018, tornou Brucutu a primeira mina a operar veículos autônomos no Brasil, proporcionando mais segurança à operação. Dotados de sensores que detectam objetos e pessoas em seu trajeto, os caminhões param de se mover quando encontram obstáculos, até que o caminho esteja liberado, evitando colisões e atropelamentos. Como não há motoristas nas cabines, reduz-se o número de trabalhadores expostos em áreas de risco, como nos locais onde são realizadas as operações em que há movimento de toneladas de rochas. A inovação gera economia. “Estimamos que o consumo de combustível e os custos de manutenção foram reduzidos em 10% e a vida útil do equipamento aumentou em 15%”, conta Hélio Mosquim, gerente de Inovação em Tecnologia da Informação da companhia.

Os caminhões autônomos da Vale, segundo especialistas do setor, são um dos exemplos de como as tecnologias digitais podem elevar a segurança e a produtividade da mineração – uma indústria que envolve detonações, risco de desabamentos, vibrações, ruídos em níveis elevados, movimentação de cargas pesadas e uso de materiais tóxicos. Empresas do setor também recorrem a sistemas de detonação remota de rochas, controle on-line da movimentação de equipamentos e trabalhadores, drones que fazem levantamento geofísico do solo, sensores integrados a software de video analytics para monitoramento de barragens e plataformas de IA que analisam em tempo real o teor de minério.

Mineração do futuro não terá funcionários em áreas de risco, diz Giorgio de Tomi, da USP

“A mineração é uma atividade insalubre, mas precisamos dos minérios, que são a base de grande parte do que consumimos. A solução para boa parcela dos problemas é automatizar tudo o que for possível”, diz o engenheiro de minas Giorgio de Tomi, diretor do Núcleo de Pesquisa para a Mineração Responsável da Universidade de São Paulo (NAP.Mineração-USP). A mineração do futuro, avalia Giorgio de Tomi, será totalmente autônoma, sem a presença de funcionários em áreas de risco, e fará uso intensivo de inteligência artificial e aprendizado de máquina na análise de dados. A meta é gerar produtividade e determinar a forma mais sustentável e econômica de aproveitamento de reservas minerais cada vez mais escassas e localizadas em regiões remotas e profundas.

Uma das maiores empreitadas tecnológicas da mineração global é liderada pela companhia sueca Luossavaara-Kiirunavaara Aktiebolag (LKAB) – a Suécia se destaca pelo desenvolvimento de soluções de ponta para o setor mineral. A mineradora planeja chegar até 2030 às reservas de minério de ferro situadas a quase 2 quilômetros (km) de profundidade das minas de Kiruna e Malmberget. Após mais de 100 anos de exploração, os corpos minerais mais proeminentes dessas duas reservas já estão em fase de esgotamento.

Para possibilitar a extração em minas tão profundas, um consórcio multinacional de empresas formado por ABB, Epiroc, Combitech e Volvo Group desenvolve tecnologias capazes de perfurar, extrair e transportar o minério de forma autônoma e eletrificada, para não haver emissão de dióxido de carbono (CO2), em uma profundidade na qual não há conectividade, pois existe forte interferência na transmissão de sinais de telecomunicações, afetada por explosões e abalos.